25.1.08

Entre o sussurro e o falsete (Ian James + Perry Blake - Auditório de Espinho - 25.01.2008)

A noite de sexta reserva sempre algo de especial! Na última de Janeiro, orientou-se a bússola para Norte e traçou-se o destino - a cerca de cem quilómetros de Coimbra esperavam uma sala quase nova e um amigo de longa data. Os motivos que atraíram cerca de trezentas pessoas ao Auditório de Espinho terão sido os mais variados; o elemento comum entre todos, a voz de Perry Blake, a apresentar Canyon Songs, o seu sexto álbum de originais (oitavo se contarmos com a banda sonora de Presque Rien e o registo ao vivo Broken Statues).

Perry Blake

Pouco depois das 21h30m, as cadeiras preenchiam-se já com a anunciada lotação esgotada e subia a palco uma figura quase incógnita de guitarra em punho. Ian James (que, por distracção de uma qualquer editora, ainda não tem trabalho editado) encarregou-se de instalar o ambiente intimista na noite numa sala que mostrava a excelente acústica de um auditório pensado para o espectador. Um encontro entre Nick Drake e Dave Matthews, à beira de uma central nuclear: uma imagem que surgiu nas cabeças de muitos ao longo dos vinte minutos com que este singer-songwriter preencheu o palco. Músicas em torno de namoradas e cenários industriais, ternas mas alertes: o próprio avisou – “Keep off the beach” -, um conselho sábio nas águas que banham as praias da juventude de Ian James. Os vinte minutos só não souberam a pouco porque muitos havia que impacientemente esperavam a outra parte do espectáculo.

Três cadeiras e uma mesa onde se vislumbrava um computador faziam adivinhar uma formação reduzida em palco. Depois de algumas falsas entradas de Glenn Garrett para os últimos acertos, Ian James e Perry Blake surgiram de entre a escuridão de fundo do palco e tomaram as restantes duas cadeiras. O primeiro momento de aplausos da noite acolheu o irlandês que começou o desfile de canções por Forgiveness do penúltimo álbum The Crying Room. Por trás dos três músicos projectavam-se imagens e excertos da letra da música – uma sucessão de fotografias maioritariamente a preto de branco que acompanha este novo espectáculo de Perry Blake, numa versão multimédia da carreira do autor. Numa mistura perfeita entre os dois últimos registos, os cinco primeiros temas do concerto trouxeram um magnífico Freedom e um intocável These Young Dudes. O papel do computador sobre a mesa era revelado – em vez de bilhetes a cem euros e uma orquestra sinfónica a acompanhá-lo, Perry Blake usou um sucedâneo electrónico para bilhetes a dez euros. No entanto, a magia multimédia de projecção não parecia querer ajudar – os problemas que surgiram com as compatibilidades tecnológicas levaram a um intervalo improvisado para tentar resolver a questão, valendo algumas alcunhas ao computador (que parecia “precisar de uma Super Bock” segundo Perry Blake); na impossibilidade de recuperar a projecção em condições, a opção pendeu para o prosseguimento do concerto sem imagens - perdeu-se na vertente visual, ganhou-se na proximidade, que muitas vezes se traduziu em escapes humorísticos partilhados com a audiência. Muito mudou em Perry Blake desde os tempos do seu primeiro álbum homónimo, o casaco de veludo continua lá mas sobrepõe-se agora a uns jeans de bainha dobrada vestidos por uma personagem bastante mais comunicativa, com o seu constante abanar de perna. O regresso de intervalo fez-se com The Ballad of Billy Bob, enquanto alguns elementos da plateia retomavam ainda os lugares. Conquistados desde início, os espectadores puderam constatar a mudança que também se sente na sonoridade – praticamente todos os temas de Canyon Songs, um álbum mais optimista, passaram pelo concerto, sendo frequente a mistura com os temas de The Crying Room. Apesar da boa adesão a estas canções mais recentes, foi para Stop Breathing a primeira grande ovação da noite. Os primeiros álbuns dos quase dez anos de carreira não ficaram esquecidos, e Perry Blake fez questão de passar por praticamente todos – incluindo uma versão acústica da tão comercialmente conhecida Ordinary Day. Pelo meio, a tradicional apresentação, com uma curiosa comparação do irlandês a Damien Rice. Após os desaires tecnológicos do início da noite, as versões acústicas começaram a ganhar terreno no alinhamento e foi com duas guitarras ao desafio que a carga dramática de Something Still Reminds You encerrou o concerto. Ou assim se pensava…

A pedido do público, os três músicos regressaram a palco e Perry Blake “arranhou” um pouco mais de português, admitindo ser uma língua complicada. Depois, um dos momentos mais intensos da noite: Sometimes silenciou o auditório – “sometimes love is not enough” ouvia-se e parecia que nem todo o repertório de Blake chegaria à ávida plateia de Espinho. Aos muitos pedidos da assistência respondeu com uma promessa de deixar um dia destes o alinhamento à escolha no seu site. E anunciou uma canção antiga a seguir-se – voltou-se a 1998 e soaram guitarras cortadas em mais uma versão acústica, desta vez para The Hunchback of San Francisco. Um agradecimento final e mais uma saída de palco que, poucos minutos e muitos aplausos depois, se mostrou não ser a última.

Um segundo encore não previsto trouxe o primeiro desabafo sobre a proibição de fumar no auditório e mais uma música antiga – Pretty Love Songs fechou uma noite de percalços mas, acima de tudo, de entendimento e intimidade.

Porque as canções de amor são assim – podem não ser perfeitas, mas são o que nos mantém vivos!

19.1.08

A noite em que os extra-terrestres desceram ao Porto (Coldfinger + The Go! Team - Casa da Música, Porto - 19.01.2008)

The Go! Team
Bruno Raposo

Mais fotografias aqui.


Dia 19 de Janeiro de 2008, viagem Coimbra – Porto com destino a mais uma noite de "Clubbing", na Casa da Música, evento em tons cor-de-laranja, promovido por uma operadora de telemóveis.

O objectivo: assistir ao 3º concerto dos ingleses The Go! Team em Portugal, eles que tinham estado na noite anterior no Lux, em Lisboa, e no ano passado no Oeiras Alive.

Antes de subirem ao palco os rapazes e raparigas de Brighton, passaram pela Sala 2 da Casa da Música, toda forradinha a painéis vermelhos que proporcionam uma óptima acústica, os lisboetas Coldfinger de Margarida Pinto e Miguel Cardona que proporcionaram um concerto algo morno, ao som do seu último LP ‘Supafacial’, editado em 2007, após um interregno de 5 anos.

Mas quem lá estava, estava lá para outra coisa e não teve grande dificuldade em responder à pergunta/grito de abertura da MC Ninja: “Who came here to partyyyyy?!”
Se a Casa da Música é muitas vezes comparada a um OVNI, então os The Go! Team foram os seus dignos ocupantes, disparando feixes de energia sonora altamente dançável para os terráqueos que estavam à sua frente.

É difícil descrever esta banda, até porque os seus elementos saltitavam freneticamente entre todos os instrumentos, que incluíam duas baterias, (uma não chegava, pois claro!...). Mas é também impossível não nos rendermos praticamente de imediato a uma vocalista que parece que veio directa do Bronx onde estava a saltar à corda com as amigas, duas meninas com a tranquilidade tipicamente oriental (uma mais voltada para a guitarra e outra para a bateria), um outro baterista que também debitava feed-back na guitarra e se agarrava a uma gaita de beiços, um teclista com ar nórdico e com vontade de experimentar, e, finalmente, um baixista com o aspecto de quem saiu de uma série americana do final dos anos 70, ele que ao longo de todo o concerto se manteve (quase) fiel às suas 4 cordas, tendo-as apenas deixado no ‘encore’ para se dedicar de alma e coração a um xilofone.

O alinhamento (pedaço de papel muito cobiçado no final do concerto) intercalou temas dos seus dois discos, ‘Thunder, Lightning, Strike!’, de 2004 e ‘Proof Of Youth’, do ano passado, com destaque para ‘Grip Like a Vice’ e ‘Ladyflash’. Apenas ficou a faltar a muito requisitada versão de ‘Bull In The Heather’, dos Sonic Youth, que Ian Parton e Kaori Tsuchida nos negaram com um sorriso.

Os The Go! Team são, de facto, uma equipa que não sabe para onde vai... E o melhor, é que nós também não.

(Ainda uma dica, daquelas de reportagem turística para uma revista da especialidade: Não deixar escapar a oportunidade de jantar no restaurante/tasca ‘Reis & Soares’, mesmo na Rotunda da Boavista. Um local muito peculiar…)